Você conhece o Santuário das Tartarugas?

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Além de praias deslumbrantes e vida noturna agitada, Búzios possui um dos melhores pontos de mergulho do Brasil

Quem conhece Armação de Búzios, popularmente chamada apenas Búzios, na região dos Lagos no Estado do Rio de Janeiro, sabe que não faltam praias deslumbrantes para visitar. São 23 praias com características únicas, que variam de piscinas naturais a ondas radicais, para a prática de esportes aquáticos como surf, kitesurf, stand up paddle (SUP), caiaque, entre outros. As minhas praias preferidas são João Fernandes e João Fernandinho, mas outras como a movimentada Geribá conquistam os turistas. A vida noturna não fica para trás: Búzios é renomada por sua gastronomia, com ótimos restaurantes e boates badaladas. Nas mesas, as conversas fluem em inglês, francês e no inconfundível espanhol com sotaque portenho. Não falta o que fazer na cidade. O que poucos sabem é que Búzios possui ainda um dos melhores pontos de mergulho do Brasil: a ilha de Âncora!

Minha viagem de uma semana em Búzios teria cinco dias de mergulho. Como fotógrafa sub, meu principal objetivo era fotografar as tartarugas da região, das espécies Verde e de Pente. Mas eu também tinha a expectativa de que minha filha Gabriela, de 7 anos, mergulhasse pela primeira vez. Filha de pais mergulhadores, Gabriela já era apaixonada pelo mar, principalmente pela vida marinha. O batismo fluiu bem e ela teve a experiência de mergulhar com tartarugas bem de pertinho. Ficou imediatamente viciada. Queria mergulhar todo dia, ficava ansiosa esperando sua vez.

A operação da Búzios Divers, com quem sempre mergulho, é muito organizada e profissional. Eles são a única operadora com saídas regulares para a ilha de Âncora. Os equipamentos são novos e a equipe de instrutores e divemasters é atenciosa e divertida, sem falar no simpático capitão lrani. Com 50 minutos de navegação até o destino, eu sempre tomo um comprimido para enjoo. O encontro ocorre cedo no píer, na Orla Brigitte Bardot. Esta recebeu o nome da musa após sua visita há mais de 50 anos, quando o balneário era quase selvagem. Hoje existe uma estátua da atriz na orla, onde os turistas gostam de tirar fotos. Feito o primeiro briefing, saí­mos em direção à  Âncora.

No caminho tivemos uma agradável surpresa, a primeira de tantas outras. Uma baleia jubarte passou não muito distante do barco. Fui informada de que as baleias jubarte passam praticamente o ano todo por Búzios, indo e voltando da região entre o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo, principalmente Abrolhos, onde se reproduzem de julho a novembro. Depois daquele primeiro encontro, ainda verí­amos baleia mais quatro vezes nesta viagem, ora distante, ora bem perto do barco.

Foi só chegar na ilha que já avistamos a primeira tartaruga. Arrumei-me rápido tanto pela ansiedade de entrar logo na água quanto para sair do caminho para que a equipe pudesse se dedicar integralmente aos mergulhadores menos experientes e batismos. Os mergulhos em Âncora foram uma delícia, com bastante vida e algumas passagens por entre pedras que se parecem com cavernas, sensação que adoro. Optei por ficar acima dos 22 metros de profundidade, pois queria poupar meu ar para que os mergulhos durassem o máximo possível e também porque quanto mais raso, mais luz natural, que é desejável nas fotos com grande angular.

Eu sabia que havia muitas tartarugas em Âncora, mas não tinha ideia de que seriam tantas. Eram tartarugas grandes, pequeninas, tímidas e não tão tímidas, que até encararam a câmera, talvez por curiosidade de verem suas próprias imagens refletidas no domo de vidro. Também vi duas, três tartarugas ao mesmo tempo! Um paraíso. Não é à toa que o lugar é chamado de Santuário das Tartarugas.

Aquela semana em Âncora vi raias chita, moréias de diversas cores, frade, peixe-cirurgião (cardumes grandes), budião, peixe-trombeta, olho-de-cão, coió (peixe-voador), peixe-morcego, muitas estrelas do mar e até nudibrânquios. É possível ver lindos corais moles e muitas gorgônias, além do extravagante coral do sol, que apesar de bonito é uma espécie invasora e inibe a formação de outros corais. Embaixo do barco há sempre dezenas de marimbás, que pulam e ficam bem perto da gente quando jogamos biscoito, uma festa para as crianças e também minha chance de tirar alguns cliques do tipo split-shot, com a câmera parcialmente submersa – uma boa diversão para o intervalo de superfície.

NOVA SURPRESA

A segunda agradável surpresa foi descobrir que Búzios tem cavalo marinho. Confesso que sozinha provavelmente não encontraria nenhum, mas os guias são treinados para encontrar estes e outros animais marinhos. Havia cavalo marinho amarelado, vermelho, preto, um mais lindo do que o outro.

Os cavalos marinhos em Búzios são vistos com maior frequência na Laje de João Fernandes. Trata-se de um ponto de mergulho mais raso e com visibilidade bastante variada, mas que apresenta vida marinha abundante, com raias viola e prego, moreia, polvo, lula, tartaruga e diversos peixes endêmicos, além dos adorados cavalos marinhos. Portanto, mesmo quando o vento não permite saída para a ilha de Âncora, a operadora não cancela saída, eles vão para a ponta de João Fernandinho. Búzios é uma opção certa para o mergulho, não há possibilidade de programar uma viagem e não conseguir mergulhar devido às condições do mar. Para mim é uma grande vantagem, já que me permite comprar passagem com bastante antecedência e aproveitar as promoções das companhias aéreas.

A Laje de João Fernandes é também o local mais indicado para fazer mergulho noturno, sendo possível praticar a modalidade de saída de praia, com entrada fácil na água, já que quase não há ondas. O mergulho é bastante simples, seguindo o desenho da costa, ideal para os marinheiros de primeira viagem, mas também agrada aos aficionados por noturno como eu. À noite é possível ver animais que dormem durante o dia, como siris, lagostas, camarões palhaço e animais minúsculos que se escondem entre os corais. Vimos também peixe-pedra, tipos diferentes de goby e até uma dançarina espanhola. Um prato cheio para foto macro! Além de tartarugas dormindo e raias viola e prego. Quando todos se sentem confortáveis com a idéia, o guia pede para desligarem as lanternas e é possível ver a luminescência ao mexer na água com as mãos. Uma experiência mágica que fechou com chave de ouro nosso mergulho noturno.

AINDA MAIS SURPRESAS

As surpresas não pararam por aí – deve ser a magia de Búzios. No segundo dia voltando de Ancora fomos surpreendidos por golfinhos de dois metros de comprimento, enormes! Pedi para pararem o barco para eu tentar fotografá­los na água – sempre deixo minha câmera pronta para uma eventual surpresa -, mas assim que eu pulei eles mudaram de direção e eu não consegui alcançá-los. No terceiro dia foi a vez de um cardume de raias, eu nunca tinha visto tantas raias juntas. Depois soube que Búzios é uma península com oito quilômetros de extensão que recebe de um lado correntes marítimas do Equador e do outro correntes marítimas do polo sul. Isso faz com que as águas sejam ricas em nutrientes, atraindo a vida marinha. Mais uma vez agarrei uma máscara com snorkel e uma nadadeira, pulei na água e pedi minha câmera. Para minha decepção, elas mergulharam no profundo do mar, saindo do meu campo de visão. Nenhuma foto.
No quinto e último dia de mergulho tive mais sorte, muita sorte. Avistei uma nadadeira dorsal, apontei e gritei BALEIA! Mas não parecia baleia, talvez fosse golfinho. Estava logo à frente do barco, então o capitão lrani cortou o motor e continuamos a navegar por inércia. Quando passamos do lado do bicho, a comoção foi geral: era um tubarão baleia! Pulamos todos na água e nadamos com esse magnífico tubarão, que é o maior peixe do mundo e está na lista dos animais em risco de extinção. No início ele não se incomodou que nadássemos ao seu lado e passou bem próximo da embarcação, quando pudemos constatar que media cerca de 12 metros de comprimento, quase do tamanho do barco. Como estava na superfície, a luz do sol iluminava-o bem, dava para ver o corpo inteiro, com as pintinhas brancas, a cabeça achatada e a boca enorme. Ainda hoje fecho os olhos e vejo aquele lindo animal ao alcance de uma braçada. O gentil tubarão afundou e seguiu seu caminho. Foram os cinco minutos mais longos da minha vida.

Já no hotel, eu limpava o equipamento de fotografia e colocava as pilhas e baterias para carregar para uso no dia seguinte. Revia as fotos e planejava como queria as do dia seguinte. Selecionava as melhores para depois tratar e quando não estava completamente exausta já editava algumas. De volta a Brasília, a viagem de certa forma não havia ainda terminado. Era o momento de editar e publicar as melhores fotos no meu perfil do Facebook e lnstagram: Paula Vianna UW Photography. Depois, avaliar o que precisa ser melhorado.

Decidi comprar uma lente fisheye 8-15mm para a próxima visita a Búzios, pensando principalmente nas tartarugas, mas também almejando o reencontro com os animais grandes do alto mar. Também estudei como melhorar minhas fotos macro à noite – é difícil usar o foco automático devido à pouca luz. E, claro, pesquisei mais fotos dos grandes fotógrafos para aprender e me inspirar. Agora só estou esperando chegar o próximo feriado, onde poderemos nos encontrar em Búzios!

 

Texto e fotos: Paula Vianna

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